O meu amigo Carlos, diz no "Mataspeak" acerca de fotografia que
uma imagem não só pode retratar a realidade como pode mesmo amplificá-la.
Gostaria de comentar um bocado duas fotografias famosas, aparentemente com o mesmo assunto - o beijo - que ilustram o que o Carlos escreveu sobre a realidade da fotografia.
O beijo de Robert Doisneau:
e o beijo de Alfred Eisenstaedt:
![]()
A foto de Doisneau é representativa (quase no mundo inteiro) do que é Paris e a França. O Amor, a arte, o romance...
Está muito bem enquadrada e captura de modo cristalino um momento de amor, como se o tempo tivesse parado para aquele casal.
Em contraste, a foto do Eisenstaedt , chamado The Photographer of the Defining Moment, é mais crua, mais factual e menos artística, captura o momento de emoção de dois anónimos nas ruas de Nova Iorque em 1945 no dia V.J. (Vitória sobre o Japão). Eisenstaedt estava no sítio certo na altura certa. Os seus olhos viram o momento, a câmara capturou-o.
A foto de Doiseau é falsa no sentido em que foi encenada e a foto de Eisenstaedt é verdadeira no sentido em que foi tirada numa fracção de segundo sem preparação. Na minha opinião nenhuma delas perde méritos por uma ou outra razão.
No entanto, a fotografia de Doisneau assombra-me a memória, e a de Eisenstaedt nem por isso.
Talvez por não ser americano, ou talvez por não ter vivido, felizmente, a Segunda Guerra Mundial não consigo ter pela foto do marinheiro e da enfermeira mais do que uma curiosidade clínica e factual - "deve ter sido incrível aquele dia" ...
A foto de Eisenstaedt é um pedaço de história, um freeze-frame da realidade.
A foto de Doisneau é um itemporal hino ao amor.
Eisenstaedt mostra o real como ele é, Doisneau amplifica-o.
Para quem ama ou alguma vez amou, a foto de Doisneau invoca uma memória, não de um local, de uma pessoa ou de um momento específico, mas do sentimento de estar apaixonado, de amar e ser amado.
De cada vez que olhamos para ela, não podemos deixar de nos sentir tocados, e tal como Bogart no imortal Casablanca, aconteça o que acontecer sentimos que We'll always have Paris...

CMata
Parabéns pelo nóvel blogue.
Sobre o aspecto gráfico, inclino-me, venerante.
Sobre o post, gostei e concordo, como poderás deduzir da continuação do meu World Godless Photo.
Abraço
May 2, 2007 2:40pm